MariaFrancisca

"Então a mãe não pode ser só mãe, tem que ser mãe, amiga, comunicativa com os filhos, então foi tudo isso que eu fui. Não basta ser só mãe, tem que ser amiga, conversar jogo aberto, não ter vergonha dos seus filhos, conversar o que sente, abrir o coração e mostrar o que é certo e o que é errado. "

Maria Francisca, 46 anos, mãe de quatro filhos. 

Maria Francisca é trabalhadora rural e mora no Assentamento Nova Canaã, em Brazlândia-DF, conquistado através da luta do Movimento Sem Terra -MST. Tem quatro filhos: Idayane, Deilson, Eduardo e Henrique. Os dois, os mais novos Eduardo e Henrique, possuem Transtorno de Desenvolvimento Intelectual e ainda moram com ela.

Maria nasceu na Bahia e migrou aos 7 anos para o Distrito Federal, para trabalhar como empregada doméstica.

Desde então, trabalha como agricultora e diarista, de onde tira parte de sua renda. Casou-se aos 20 anos, com o pai dos seus quatro filhos, mas há 11 anos já não estão mais juntos.

Lote de Maria no Assentamento Nova Canãa. 

sem título (4 de 4).jpg
DSC06272.JPG

Migrou por diversas ocupações urbanas no DF, “morando de favor” em casas de conhecidos até conseguir comprar seu primeiro barraco quando casou. Sua casa pegou fogo, acidentando dois de seus filhos e ela, que teve parte do corpo queimado. Nessa época, conheceu a luta do Movimento Sem Terra e migrou para o campo, em busca de uma terra para morar e plantar. Viveu em diversos acampamentos do movimento por cerca de sete anos. 

Quando acampada, relata episódios em que seu filho fugia de casa para “morar na rua”, ficando até um ano sem notícias dele. Nessa época, conciliava a luta pela terra, os trabalhos como diarista e os cuidados médicos de seus dois filhos que possuem Transtorno de Desenvolvimento Intelectual. Até que, há 4 anos, conseguiu se firmar no assentamento que mora hoje e produz verduras, frutas e hortaliças a partir de sistemas agroflorestais.

"Quando o pai deles foi embora o Henrique tinha 8 anos. Agora ele tá com 22. Eu criei meus filhos só. Agora não né, mas desde quando eu comecei a acampar, ele só vivia fugindo, cheguei a ficar um ano sem ter notícia dele. Nenhuma nenhuma. Tinha vez que eu achava ele no plano, achei ele num abrigo, fiz aqueles cartazes de desaparecido, espalhei pela cidade inteira e aí achei ele. Logo que eu entrei pra conquistar a terra foi a fase mais difícil que enfrentei. Eu pegava ele e ele ia. Ele não aceitava ficar, por que os outros ficavam falando que ele era invasor. Quando eu entrei, ele tinha 9 anos, perto dos 11. Aí ele começou. Foi uma barreira muito grande. E quando eu fui pro Dorothy, que foi o acampamento que a gente enfrentou, mas pensei que meu nome ia entrar, mas era ordem de chegada e eu não entrei. Ai eu fiquei em tarefa, por que todos os acampamentos a gente tem tarefa. Fiquei caçando ele e não achava, e aí eu tinha que cuidar das tarefas e ainda tinha que procurar ele. Ele veio amadurecer depois que eu mudei com ele [pra cá], em definitivo. Por que até quando eu tava na área acampada ele ainda ia. Então, filho não é fácil. Muitas vezes eu falo assim pra minha mãe, “mãe, eu não quero ter menino”, mas aí quando a gente casa, a gente quer ter um menino. Mas aí né, foi vindo, a gente vai tendo amor pelos filhos e mais fácil não."

photo4958660926190495889.jpg

"Tudo que eu aprendi apanhando eu passei pros meus filhos. Eu criei vocês tudinho trabalhando de diarista, mas dignamente. Eu não tenho vergonha de dizer isso, eu criei meus filhos trabalhando de diarista, até o fim de semana mas hoje eu tô muito feliz que tô na idade que tô né assim e ainda meus filhos ainda tudo criado e ainda tenho força para trabalhar na roça. E diarista as vezes é mais pesado do que trabalhar na roça. Você sabia? E aí, eu procurei passar isso pra eles, né. Hoje assim, eu as vezes deito e fico pensando na minha vida, sabe? Por que eu cuidei e vivi pra eles. Eu não vivi pra mim, eu vivi mais pra eles. Hoje, eu falo pra eles, ó, vocês tinham que pensar mais e me ajudar mais, por que não me ajudou muito não. Por que eu dei minha vida pra vocês. Trabalhei minha vida inteira de diarista pra criar vocês, por que o pai sempre foi ausente. Eles não teve um pai pra ensinar o caminho certo. Pra dar um conselho. Eles não teve. Levar o filho na escola, se tiver uma reunião da escola, quem ia era eu, tinha um problema na escola, quem ia era eu. Então, eu tô muito feliz por causa disso. Eu ensinei pra eles o que era certo, sabe?"

Hoje seus dois filhos mais novos vivem em boas condições de saúde, mas ainda dependem integralmente dela para o sustento, pois não conseguiram aposentadoria especial. Os outros dois filhos, mais velhos, já são casados e moram fora, mas a visitam constantemente. Maria também tem contato com sua família que mora em Minas Gerais, mãe e irmãos. 

Durante a pandemia, ela perdeu seus trabalhos como diarista e está com dificuldades para vender o que produz na terra. Então optou por produzir apenas para a subsistência. O pai dos filhos faz ajudas financeiras esporadicamente, com até no máximo 200 reais por mês. A mãe também manda dinheiro quando pode, mas “não passa de 50 reais” .

photo4958660926190495896.jpg

"Tô plantando bem pouquinho, enquanto essa crise não passar não vou plantar tanto quanto eu plantava. Vou plantar não coisa que perde rápido, mas coisa que dura mais. Plantando mais pouco. As vezes uma amiga minha me liga e fala, to precisando tanto pra tal dia e tal hora. Mas é pouquinho. Aí não preciso plantar horrores quando é assim. (…) Mas antes de trabalhar assim, eu ainda trabalhava pra fora, como diarista, mas nisso, aí fechou tudo. Não to tendo nem lá fora, nem aqui."

"Isso mudou minha vida todinha, todinha, todinha. Assim, por que eu tava numa entrevista, aí as pessoas vinham aqui pegar as coisas na minha porta. Não precisaria eu ficar me sacrificando tanto, por que eu não tenho veículo e quando a pessoa viesse, ficaria melhor pra mim. Aí eu tava conversando com essa pessoa de até buscar, umas duas vezes, mas com isso daí, ele não vem mais, por que diz que tava levando e não tava saindo [Vendendo ou saindo mesmo], e com isso ele tava tendo muito prejuízo. Ele disse assim, “Maria, eu só posso pegar suas verdurinhas quando passar isso aí tudinho”."

"O pai dos meus filhos, ele me dá uma pensãozinha dos menino, é 200 reais. Ele me dá em tickets alimentação. Eu fui lá comprar misturando, deu nadinha, nadinha. O que eu pego aqui na chácara de verdura, eu vou complementando. Falta um frango, eu vou lá e compro, mas eu parei agora. Aí vou criar só mais na frente. Como é muito serviço, galinha tem que ter muitos cuidados. Mais do que as hortas. Tem que ficar trocando água direto, principalmente nessa época de seca. Aí eu parei de criar as galinhas, aí eu tô mexendo só com as hortas. (…) Minha renda no momento é essas assim."

photo5147886486488721582.jpg
WhatsApp Image 2020-09-06 at 19.42.16 (1
WhatsApp Image 2020-09-07 at 13.29.26.jp

Por Andressa Zumpano com aúdios, fotos e vídeos cedidos por Maria Francisca e Idayane.