Bom, eu sou Luísa Molina, tenho 31 anos, sou mãe do Luca, que tem quase seis anos e meio. E sobre o significado de ser mãe solo, a primeira coisa que me vem quando eu penso nisso é...não é uma
ausência, não é ausência que define minha maternidade solo, não é ausência do pai ou de uma outra pessoa. Não me deixaria definir por isso, não seria nem correto, nem justo. E ser mãe solo pra mim é...ser mãe, antes de tudo pra mim foi uma experiência de enraizamento no mundo muito visceral, de mudar tudo o que eu conhecia de ser no mundo. Deslocou questões e perspectivas, mudou os pesos e as medidas, inaugurou em mim sentidos de estar no mundo que não tinha antes. E me fez conhecer todos os matizes possíveis de cansaço e medos que eu não sabia que eram possíveis e angústias também, mas também ternura. Transformou a minha voz, me fez descobrir que é possível sentir um amor profundo, como eu não sabia que era possível e também me deu força para justamente recusar ser definida pela ausência ou por um exterior violento. E sim ser definida por o que eu sempre quis ser, que é alguém mais centrada e firme, e autônoma nas minhas decisões e nos meus caminhos de vida.
​é uma batalha que me sinto orgulhosa em fazer

Por muito tempo fui translúcida: sentia a minha pegada e a minha presença quase aéreas, diáfanas. Era como se meu corpo e o mundo fossem terra alheia. Atribuo esse estado a uma dor fundante (a infância inaugurada por uma tragédia familiar), e a certa sombra que me acompanhou – imperativa, e no entanto difusa – até recentemente. Quem me olhasse não poderia adivinhar (embora de certa maneira eu o desejasse); e logo entendi como pode ser imensa a distância entre o dentro e o fora.

Em 2010 fiz este autorretrato; mas eu o penso como uma única e contínua imagem, que vai de agosto de 1993 a dezembro de 2019.

26 anos e 4 meses.

Se hoje falo dessa longa noite, é porque já a vejo da outra margem. Pois quase como num susto, assim, de súbito, me dei conta de que não é mais essa dor fundante – e nem as que a sucederam – que me define ou descreve, que me expulsa dos contornos, me nega o corpo e me faz negar o mundo; não é a ela que pertenço.

Mas antes precisei fazer a travessia.

A possibilidade de ter construído em mim um lugar de fortaleza, um lugar de crescimento. Com muita solidão e é uma solidão que eu sinto ainda praticamente todos os dias. E ela é mesma traiçoeira. Distorce as coisas, me deixa suscetível. É muito difícil estar num lugar de construção autônoma de minha própria força.

Mas eu acho que é a única prevenção de uma relação abusiva e eu vou entendendo isso aos poucos. E não precisa ser sozinha e é claro que, em grande medida não é, tenho outros vínculos, redes, meu filho. Mas em um certo âmbito e em um certo sentido é sim, por que eu não posso me apoiar em ninguém para encontrar a minha própria força, a minha própria base.

A força
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Luísa é doutoranda em Antropologia Social na UNB. Acompanha desde 2012 o debate público acerca dos direitos territoriais de povos indígenas, tendo atuado em diversas campanhas nesse sentido, publicado artigos em jornais e participado de podcasts sobre o tema. Sua maternidade foi, inclusive, marcada pelo processo de conciliar pesquisa e cuidados com o filho. Onde muitas vezes precisou levá-lo a campo. Atualmente, durante a pandemia, passa pelos atravessamentos da maternidade, dedicação à pesquisa e militância em defesa dos povos indígenas.

Colagens feitas por Luísa Molina durante o primeiro semestre de quarentena. Brasil, 2020. 

Reportagem por Andressa Zumpano. Imagens, vídeos, audios, textos e colagens por Luísa Molina.

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